
Lendo um trabalho sobre o aumento da procura de tratamento por usuários de crack em enfermarias de São Paulo, me dei conta e tomei um susto ao perceber que o trabalho tratava de uma pesquisa de 1990 a 1993, ou seja, o problema do crack é muito mais antigo do que podemos imaginar. O trabalho assinado por Ferri, C.P., Laranjeira, R.R., Silveira, D.X. da, Dunn, J. E Formigoni, M.L.O.S. impressiona ao mostrar que o problema já começava a atingir uma situação de preocupação por se tratar de uma questão de saúde pública. O estudo aponta ainda que ao analisar as modificações das vias de administração da cocaína em um universo pesquisado de 245 pacientes observou-se que da percentagem de pacientes que relataram uso de cocaína fumada (crack) aumentou de 17% , em 1990, para 64%, em 1993. As pedras de crack antes fumadas em cachimbos improvisados por moradores de rua agora já atingem alguns usuários da classe média que passaram a fazer uso da droga, mais barata, de efeito mais potencializador, o que pode ser conferido com o aumento considerável de apreensões da polícia nos últimos anos. Chamou minha atenção uma matéria publicada no Jornal O Globo mostrando que através de um levantamento inédito realizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad), da Uerj, em 2005, de um universo de 200 dependentes de cocaína e crack, que foram pesquisados, apenas um era viciado em crack. Três anos depois, o número de dependentes de crack que procuraram atendimento no Nepad chegou a 57,3% dos mesmos 200 atendimentos, superando em muito a quantidade de usuários de cocaína em tratamento. Segundo o psicólogo Bernardo da Gama Cruz, um dos coordenadores da pesquisa, o crack é hoje a droga mais usada pelos jovens até 21 anos em tratamento na instituição. Vamos entender um pouco essas drogas e como elas agem. Cocaína (Hidrocloreto e Crack). A cocaína é um poderoso estimulante do sistema nervoso que pode ser usado por via intranasal, intravenosa ou fumada. É encontrada em folhas de Erythroxylan coca, árvores nativas da Bolívia e do Peru. A cocaína aumenta o estado de alerta, as sensações de bem-estar e euforia, a atividade motora, as sensações de competência e de sexualidade, sendo as mesmas acompanhadas, frequentemente, de ansiedade, paranoia e inquietação. Com doses excessivas ocorre o surgimento de tremores, convulsões e aumento da temperatura corporal, além de taquicardia, hipertensão, infarto do miocárdio que podem suceder durante uma overdose. Conforme os efeitos da droga diminuem, o dependente sente-se não mais eufórico, cansado, irritadiço e levemente deprimido, o que pode acarretar a vontade de usar, novamente, a droga para recuperar a experiência anterior (O'Brien CP – 2001. Drug addiction and drug abuse). No cérebro, a cocaína age como um bloqueador do transporte de monoamidas, com afinidade similar pelos transportadores de serotonina, dopamina e noradrenalina. A cocaína e o transportador de dopamina ao qual ela se liga podem ser visualizados no cérebro através de tomografia por emissão de pósitron (PET). É amplamente aceito que a capacidade da cocaína de atuar como reforçador se deve à sua capacidade de bloquear a recaptura de dopamina. Ao se investigar o papel da dopamina nos efeitos reforçadores da cocaína foi revelado que a taxa da qual a droga entra no cérebro e bloqueia o transportador de dopamina (neurotransmissor, precursor natural da adrenalina e da noradrenalina e tem como função a atividade estimulante do SNC – Sistema Nervoso Central) está associada ao barato da droga e não apenas à presença da cocaína no cérebro (Volken ND – 1999. Reinforcing effects of psychostimulants in humans in brain dopamine and occupancy of D2 receptors). A abstinência de cocaína não resulta em sintomas graves como observados no caso de opióides, mas induz uma baixa depois da alta, o que pode fazer com que o dependente faça uso adicional da cocaína ou de outra droga. Quanto aos aspectos neurobiológicos em relação ao uso prolongado, pode-se dizer que foram registrados déficits cognitivos associados ao uso crônico, afetando, por exemplo, a tomada de decisões e julgamento. Há fortes indícios que dão suporte à existência de uma síndrome neurológica após o uso a longo prazo de cocaína. Os dependentes exibiram também um desempenho prejudicado em testes de funcionamento do sistema motor e mostraram tempos de reação ou de resposta mais lentos do que indivíduos não dependentes.
DANOS: estudos clínicos fornecem evidências de prejuízos neurológicos e psiquiátricos e possível degeneração neuronal associados ao uso crônico de cocaína. Incluem ainda isquemia cerebral, hemorragias cerebrais, infartos, neuropatia ótica, atrofia cerebral, prejuízos cognitivos e transtornos de humor e dos movimentos, além de déficits de atenção, desinibição comportamental, instabilidade emocional, impulsividade, agressividade e depressão.
Fontes: Neurociência do Uso e da Dependência de Substâncias Psicoativas, OMS, 2007, Ed. Roca; Anotações em Química Forense; Aumento da procura de tratamento por usuários de crack em dois ambulatórios na cidade de São Paulo: nos anos de 1990 a 1993, com acesso em 22/11/09,http://biblioteca.universia.net/html_bura/ficha/params/id/605832.html.
Ricardo Ferreira







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