terça-feira, 5 de julho de 2011

Nas árvores, a história do clima


As árvores mais antigas do mundo ajudam a entender o clima do Planeta. Estudos no Brasil e no exterior revelam que é possível monitorar espécies para ver como elas se comportam e como vão se adaptar, no futuro, às mudanças climáticas. Isso é possível porque os traumas sofridos pela ação externa do fogo, da chuva e da neve ficam registrados no interior da madeira, em estruturas circulares chamadas de anéis de crescimento. Em quase todas as árvores há a marca do anel. É dele que extraímos as informações para saber em que condições ambientais aquela árvore cresceu e entender as mudanças climáticas, independentemente se ela viveu há 300 ou 3 mil anos”, explica o professor da cadeira de Anatomia Vegetal da USP, Gregório Ceccantini. A ciência que estuda a idade das árvores e sua relação com o meio é chamada de dendrocronologia. Com as pesquisas, pode-se saber a idade da espécie mais velha do mundo, a pouco conhecida Currey Tree, de 4.955 anos, que está em Nevada, nos EUA. Na madeira também é possível coletar dados que ajudam a alcançar modelos climáticos anteriores aos do início das medições com instrumentos. Nas montanhas da Suécia, as árvores possibilitaram a busca de informações climáticas de quase 10 mil anos atrás. No estudo dos pesquisadores Lisa Öberg e Leif Kullman, da Universidade de Omea, foram encontradas árvores que têm se reproduzido assexuadamente, de forma contínua, há 9.550 anos. Elas foram batizadas de Old Tjikko e Old Rasmus. “Queríamos saber o máximo possível a partir da história contida na vegetação”, explica Lisa. Os cientistas concluíram que, em resposta ao aquecimento do século 20, as duas árvores suecas cresceram mais que a média – elas ainda podem alcançar 2 metros de altura. Os pinheiros podem se adaptar a um futuro com temperaturas mais quentes. “A sobrevivência durante todo esse tempo sugere que essas paisagens podem prosperar em um cenário de aquecimento global”, conclui a cientista. As espécies tropicais não vivem tanto quanto as das florestas do Hemisfério Norte. Mesmo assim, é possível ter ideia de como as árvores vão reagir às mudanças climáticas, observando seus anéis. No Brasil, uma equipe da USP chefiada por Ceccantini pesquisa duas espécies de jatobás, em Matozinhos (MG). O time liderado pelo professor coletou dados sobre o jatobá-de-mata (Hymenaea courbaril) e o jatobá-de-cerrado (Hymenaea stigonocarpa), para reconstituir as condições de temperatura e chuva na região nos últimos cem anos. “Já conseguimos projetar como o jatobá pode se comportar no próximo século”, conta o professor. “Se as mudanças climáticas continuarem, somos capazes de fazer projeções com uma grande margem de certeza”, acredita. “Enquanto o de mata responde menos ao dióxido de carbono, o de cerrado reage melhor”, constata o mestre em Ciências Biológicas da USP Giuliano Locosselli, que defendeu, no ano passado, uma dissertação sobre a experiência. Na presença do aumento do gás ao longo do século 20, o jatobá-de-mata passou a perder mais água que o de cerrado, ao crescer – o que indica uma menor tolerância às mudanças ambientais nesse período. “Quanto mais informações tivermos, mais preciso é o modelo e melhor será a projeção, tanto para reconstituir o passado como para prever o futuro”, resume Ceccantini, da USP. Na Amazônia, a observação de anéis de crescimento de duas espécies indicou que a chuva inibiu o crescimento das árvores. O estudo realizado pelo pesquisador Jochen Schöngart, do Projeto Inpa/Max-Planck, revelou que a Piranheira e a Arapari formaram anéis mais largos nos anos em que ocorreu o fenômeno El Niño – com menos chuva do que noutros anos. Já o fogo teve efeito inverso em árvores nos Estados Unidos. No país, a relação das sequoias, terceira espécie mais velha do Planeta, com o clima é tema dos pesquisadores da Universidade do Arizona. O grupo liderado pelo professor de dendrocronologia e diretor do Departamento de Pesquisa de Anéis de Árvores da universidade, Tom Swetnam, identificou, em um bosque próximo do Parque Nacional das Sequoias, em Sierra Nevada, na Califórnia, exemplares da espécie com cicatrizes de fogo do ano de 1297. Foi verificado que, logo após o incêndio, houve um crescimento enorme das sequoias sobreviventes, o que sugere que elas tenham competido pelo que restou de nutrientes no solo. “Amostras preliminares indicam que o fogo tem sido uma constante em florestas de sequoias nos últimos 10 mil anos”, anotou Swetnam, em artigo sobre o assunto. Em outra pesquisa, Swetnam encontrou cicatrizes do fogo coincidentes com anos de seca. “Fogos extensos ocorreram em escala global, entre 1982 e 1983, com o El Niño, e entre 1997 e 1998, nas florestas tropicais da Indonésia, México central e Bacia Amazônica”, menciona o pesquisador no estudo. Ferramentas de previsão de incêndios, com bases nesses estudos são desenvolvidas no País.
Fonte: estadao.com.br

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