sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Cientistas estudam furões para descobrir o 'barato" do corredor

Furões normalmente não fazem parte de estudos sobre exercícios físicos, talvez porque eles não se exercitem muito. Eles passam como o vento por túneis e pulam rapidamente pelos campos abertos, mas gastam a maior parte de seu tempo dormindo. Em termos biológicos, eles são o que se chama de uma espécie não cursora, o que significa que eles evitam correr e não o fazem por grandes distâncias. Isso os torna sujeitos de pesquisa ideais para um experimento conduzido pela Universidade do Arizona, em Tucson, que procura descobrir se os humanos e outras espécies evoluíram para gostar de correr. Muitos antropólogos e maratonistas acreditam que correr serviu de base para a evolução dos primeiros humanos. Nós corríamos em busca do jantar e para fugir dos predadores. Mas, do ponto de vista metabólico, correr custa caro. A corrida incinera energia, e pode causar ferimentos. Um tornozelo torcido tiraria o humano primitivo típico da piscina de genes. Então, porque nossos ancestrais correram durante milênios, "ao invés de desenvolver outras estratégias de sobrevivência?", perguntou David A. Raichlen, o professor de antropologia da Universidade do Arizona que conduziu o estudo, publicado no mês passado no periódico The Journal of Experimental Biology. "Nós queríamos saber se a seleção natural poderia ter utilizado mecanismos neurobiológicos para encorajar o exercício físico", afirmou. Especificamente, Raichlen e seus colegas se interessaram pelo papel evolutivo do sistema endocanabinoide. Assim como o nome sugere, os endocanabinoides são compostos químicos que, como a cannabis presente na maconha, alteram e aliviam o humor. Entretanto, o corpo produz endocanabinoides naturalmente. Em outros estudos, demonstrou-se que os níveis de endocanabinoides aumentam após corridas ou a prática prolongada de ciclismo, levando muitos cientistas a concluir que os endocanabinoides ajudam a criar o "barato" do corredor. Raichlen conjecturou se os endocanabinoides poderiam ter impulsionado o desenvolvimento da raça humana como um todo: será que nós, enquanto espécie, continuamos a correr não porque precisamos, mas porque nos tornamos programados para gostar de fazer isso? Para testar a ideia, Raichlen e seus colegas decidiram comparar a resposta dos endocanabinoides à corrida em espécies que, historicamente, correm ou não correm – em outras palavras, para ver quais animais sentiam o "barato" do corredor. Os furões foram escolhidos por representar a classe dos não corredores (segundo Raichlen, principalmente porque "podíamos encontrar um lugar para eles na sociedade depois do estudo", ao contrário de outros animais não cursores, como gambás e outros didelfiídeos). Humanos e cães foram escolhidos como as espécies cursoras, que correm por longas distâncias. Os cientistas recrutaram 10 corredores amadores e oito cães de diversas espécies. Em seguida, retiraram amostras de sangue dos humanos e dos demais animais e, após alguns treinamentos leves preliminares ("utilizando reforço positivo", afirmou Raichlen), cada indivíduo deveria correr em uma esteira por 30 minutos a um ritmo equivalente a 70 por cento de sua frequência cardíaca máxima. Em outra ocasião, as pessoas e os cães andaram por 30 minutos na esteira, enquanto os furões, que não conseguiram aprender a andar na esteira, descansaram por 30 minutos em suas gaiolas. Os cientistas retiraram amostras de sangue após cada sessão, e conferiram os níveis de endocanabinoides das amostras. Descobriu-se que, conforme o esperado, os humanos apresentaram níveis significativamente maiores de endocanabinoides após a corrida. O mesmo pôde ser identificado entre os cachorros, sugerindo pela primeira vez que eles também experimentam o "barato" do corredor. Mas nenhuma das espécies exibiu níveis mais elev ados de endocanabinoides após a caminhada. Já os furões não exibiram níveis mais altos de endocanabinoides após nenhuma das sessões. Ao que parece, eles não obtiveram nenhum prazer neurobiológico com a corrida. Todas essas descobertas sugerem que, além do fato de que furões não são bons parceiros de treinamento para maratonistas, o "efeito que recompensa" a atividade aeróbica "parece ser parte de nossa história evolucionária", afirmou Raichlen. Aparentemente, gostar de correr pode ter ajudado a transformar os humanos naquilo que eles são. Então, por que é que, na prática, o número de humanos que corre é tão pequeno? (Os cachorros são um assunto diferente; o meu, por exemplo, precisa ser contido para não correr e pular por quilômetros.) "Essa é a pergunta de um milhão de dólares", afirmou Raichlen. "Em nosso estudo, descobrimos que temos o desejo evolutivo" de praticar exercícios. Mas o homem moderno aprendeu a ignorar esse desejo. É claro que existem limitações no estudo e no que ele pode dizer sobre a razão pela qual muitas pessoas do mundo desenvolvido preferem se mexer menos. Os voluntários humanos eram todos esbeltos, diferentemente da maior parte dos humanos modernos. Eles podem ter sido especialmente motivados a se manterem ativos desde quando eram novos e talvez não sejam representativos dos humanos do presente ou do passado. Também é um pouco difícil chegar a conclusões baseadas em comparações entre pessoas e furões. "Furões são bizarros", afirmou David J. Linden, professor de neurociência na Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins e autor do livro "The Compass of Pleasure: How Our Brains Make Fatty Foods, Orgasm, Exercise, Marijuana, Generosity, Vodka, Learning, and Gambling Feel So Good" (A medida do prazer: como nosso cérebro transforma comidas gordurosas, orgasmos, exercícios, maconha, generosidade, vodca, aprendizado e apostas em coisas tão boas, em tradução livre). "Eles vivem em buracos e dormem 18 horas por dia." Ainda assim, o novo estudo é provocante. "Nossos resultados ainda são muito preliminares", afirmou Raichlen. "Mas a mensagem é que nosso histórico evolutivo parece ter incluído esse tipo de atividade de resistência, premiando-a. E, como resultado, continuamos a ter o imperativo biológico" de nos movimentarmos. 
Foto: Getty Images Teste de corrida: furões foram escolhidos por representar a classe dos não corredores. Fonte: Último Segundo

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